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Comédia de ação ‘Argylle: O Superespião’ é reciclagem embalada como novidade

Em cartaz, filme dirigido por Matthew Vaughn (‘Kick-Ass’ e ‘Kingsman’) e com elenco de pedigree intenta ser o início de uma trilogia, mas já começa criativamente em baixa

Conhecida por uma série literária de sucesso sobre um agente de grandes habilidades, a autora de modos ingênuos Elly (Bryce Dallas Howard) acaba se envolvendo numa teia de perseguições e mistérios tão ou mais complicados do que seus próprios livros. Formando uma parceria improvável com o espião Aiden (Sam Rockwell), ela precisa escapar do alvo que a organização poderosa Divisão colocou em suas costas devido à posse de um material sigiloso. Ao longo da jornada, a ficção e a realidade começam a se misturar e as coincidências entre as histórias da protagonista e a sua podem ser a chave dos mistérios.

Durante muito tempo da produção e pré-lançamento de Argylle: O superespião, em cartaz, o material de divulgação o vendeu como uma adaptação da obra de uma autora desconhecida chamada Elly Conway – especulada até recentemente por várias teorias como um pseudônimo de pessoas célebres. Apesar da existência do livro, publicado em em janeiro deste ano, hoje já é sabido que se trata de uma figura ficcional e que o longa é escrito por Jason Fuchs (um dos responsáveis pela história de Mulher-Maravilha, de 2017).

Para quem não estava por dentro desse tratamento externo, porém, não sobram muitos enigmas para decifrar em Argylle, exceto o porquê de um projeto tão derivativo e formalmente irregular como esse ter sido produzido por cerca de 200 milhões de dólares. Bancado pela Apple, com distribuição nos cinemas pela Universal, e dirigido por Matthew Vaughn (X-Men: Primeira classe, Kick-Ass e Kingsman), o filme é pensado como o primeiro de uma suposta trilogia, mas não oferece um material consistente quiçá para um longa de mais de duas horas de duração.

Apesar do pedigree do elenco – que inclui ainda Henry Cavill, no papel do agente ficcional, Dua Lipa, Ariana DeBose, Bryan Cranston e Sofia Boutella – e dessa produção caríssima, Argylle tem uma aparência bastante trivial que se assemelha aos originais da Netflix dos últimos anos, como Alerta vermelho e Agente oculto, igualmente custosos, mas executados de maneira burocrática, sem qualquer visão artística preponderante. São, em última análise, filmes pensados apenas pelo potencial publicitário, visto que dificilmente suas narrativas ou abordagens visuais geram engajamento algum tempo depois da estreia na plataforma.

O tempo dirá se este terá o mesmo destino quando entrar no catálogo da Apple TV+, mas suas características são muito similares: o uso evidente da computação gráfica que artificializa os cenários, a fotografia desprovida de textura, o senso de humor frequente, a série de aparições especiais de atores conhecidos acompanhadas de reviravoltas espertas e, sobretudo, a falta de qualquer peso real na ação em cena. Até os momentos bem coreografados e competentes de Argylle parecem existir não por necessidade autoral, mas por distração – o que se aplica também ao trabalho de câmera, que atravessa vidros e sobrevoa cenários com essa mesma lógica de floreio. É como se a direção quisesse a toda hora convencer o espectador de que tem algo muito interessante acontecendo na trama (não tem).

A falta absoluta de originalidade no roteiro e nas viradas do filme nem é, por si só, o maior dos problemas. Afinal, é perfeitamente possível transformar uma história de ação/espionagem clichê em um jogo assumido de estímulos visuais. As sagas Missão impossível e John Wick, de formas distintas, se renovam a cada filme e transformam as suas obsessões em aspectos quase conceituais. Infelizmente, Argylle não possui personalidade para ganhar vida para além das reciclagens que faz desse imaginário contemporâneo do gênero.

A comparação com as séries aclamadas de ação de Tom Cruise e Keanu Reeves é desigual com quase qualquer concorrente, mas não é descabida, considerando o alto custo de Argylle e o modo como o próprio filme se coloca – através da extensa duração e da metalinguagem – numa embalagem de inventividade. Tivesse ele modéstia o suficiente para lidar apenas com seus ocasionais acertos com a ação, talvez sobrasse algo maior da experiência, mas definitivamente não é o caso.

Era esperado, de certa forma, que, depois de bancar os ambiciosos projetos autorais Assassinos da lua das flores e Napoleão – também lançados nos cinemas através de acordos com outras distribuidoras –, a Apple entrasse nessa estratégia de ‘filme de figurões’. A escolha de Matthew Vaughn faz sentido para isso, haja vista que ele se especializou, com a franquia Kingsman, em um tipo de ação/espionagem que busca adequar o gênero clássico a uma abordagem contemporânea, principalmente com o uso da violência estilizada e de uma playlist pop.

O que já vinha fora de tom e plastificado nos seus últimos filmes, em especial King’s Man: A origem, fica mais aguado ainda aqui, já que nem a violência recreativa está presente como apelo visual e tudo precisa se resumir a sacadas inusitadas (com gato, petróleo, cores, fumaça) para compensar a ausência de uma iconografia própria. Argylle é, na prática, um festival pomposo de movimentos descartáveis bem menos instigante do que o marketing fez parecer.

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