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OPINIÃO | ‘Tremembé’ transforma tragédia em gancho. O que isso diz sobre nós?

THIAGO TIÃO
Especial para o Giro Blog
Foto: Prime Video/Divulgação

Já está no Prime Video a primeira temporada de Tremembé, com 5 episódios. O elenco principal reúne Marina Ruy Barbosa (Suzane von Richthofen), Carol Garcia (Elize Matsunaga), Bianca Comparato (Anna Carolina Jatobá), Lucas Oradovschi (Alexandre Nardoni), Felipe Simas (Daniel Cravinhos), Kelner Macêdo (Cristian Cravinhos), Anselmo Vasconcelos (Roger Abdelmassih) e Letícia Rodrigues (Sandrão).

A primeira imagem podia ser uma qualquer de presídio. Portões que rangem, luz fria no corredor, o silêncio vigiado antes do próximo barulho de grade. Tremembé escolhe começar dentro desse ritmo e pede que a gente acompanhe alianças, barganhas e sabotagens entre condenados célebres. É ficção com base em casos reais e estreita a distância entre o noticiário e a dramaturgia.

A estratégia é clara. O Prime Video escala nomes que o público reconhece e coloca cada um para insinuar, nunca imitar. Marina Ruy Barbosa vive Suzane von Richthofen com frieza contida. Carol Garcia desenha a astúcia de Elize Matsunaga sem cair no espetáculo. Bianca Comparato faz de Anna Carolina Jatobá um corpo que fala no silêncio. Lucas Oradovschi compõe Alexandre Nardoni como nervo exposto. Os irmãos Cravinhos se dividem entre a culpa e a sobrevivência de Felipe Simas (Daniel) e Kelner Macêdo (Cristian). Anselmo Vasconcelos dá a Roger Abdelmassih um verniz cortante. Letícia Rodrigues sustenta a liderança de Sandrão no pátio feminino. A direção de Vera Egito segura o tom, a fotografia evita o fetiche do cárcere, a montagem empilha tensão sem histrionismo. Tecnicamente, funciona.

O incômodo vem do propósito. Tremembé organiza tragédias reais em ganchos e transforma notoriedade em motor dramático. Humanizar não é absolver, é requisito para compreender violência. O problema aparece quando a humanização vira atalho de empatia para personagens que já ocuparam espaço desproporcional no imaginário público. As vítimas, mais uma vez, ficam fora de foco. O sistema prisional, que deveria ser personagem, vira cenário.

Comparar ajuda a dimensionar. Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez abriu espaço para as famílias das vítimas e para o arquivo judicial. Caso Evandro tensionou método e ética, incluídos erros e acertos do jornalismo. Bandidos na TV encarou a engrenagem midiática que alimenta o crime. Até a ficção de Bom Dia, Verônica colocou a estrutura de Estado no centro. Tremembé prefere a dramaturgia da notoriedade. O presídio dos famosos rende curiosidade e conversas rápidas, mas raramente avança para a pergunta que interessa: o que o país faz com quem pune e por que a punição falha tanto em prevenir que essas histórias se repitam.

Falta também o contrapeso público. Avisos de conteúdo existem, porém não bastam. Caberiam janelas com dados de política prisional, serviços de apoio a vítimas e familiares, vozes de defesa, execução penal e criminologia. Se a série se ancora em livros e processos conhecidos, a responsabilidade editorial aumenta. O Estado não pode desaparecer da narrativa quando é ele quem opera o cárcere.

Como produto, Tremembé entrega o que promete. É eficiente, tem acabamento e vai gerar debate. Como crítica, fica o ponto: transformar nossos vilões em protagonistas consumíveis diz muito sobre a economia do streaming e um pouco sobre nós. Se o objetivo é audiência, missão cumprida. Se a ambição é conversa pública, falta devolver a câmera para as vítimas e para o sistema que fabrica reincidência e abandono.

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