THIAGO TIÃO
especial para o Giro Blog
Foto: Victor Jucá
“Modernizar o passado”. A canção ‘O monólogo ao pé do ouvido’, de Chico Science e Nação Zumbi, não faz parte da trilha de O Agente Secreto, novo filme de Kleber Mendonça Filho, estrelado por Wagner Moura, mas poderia. O verso define o espírito da obra, que revisita o Recife dos anos 1970 para revelar um país que continua o mesmo, apenas com novas fachadas.
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Marcelo (Wagner Moura), especialista em tecnologia, chega ao Recife depois de três dias de estrada. Numa parada, encontra policiais tentando arrancar propina, enquanto um corpo é ignorado ao lado. Em plena semana de carnaval, aluga um apartamento com dona Sebastiana (Tânia Maria) e tenta se manter incógnito, mas logo passa a ser vigiado e, ao mesmo tempo, recebe ajuda de desconhecidos.

Entre o real e o imaginário, o filme recria o ambiente opressor da ditadura, quando o medo era parte da rotina e a censura se infiltrava em cada gesto. Nesse cenário, ganha força o mito da Perna Cabeluda, figura que aterrorizava a cidade e simbolizava o controle invisível, a vigilância constante e o silêncio imposto à população. Kleber usa essa lembrança coletiva como camada simbólica, mais sobre poder e medo do que sobre o sobrenatural.
O Agente Secreto trata de uma história que o Brasil costuma fingir que não viveu. A ditadura também aconteceu aqui, e muitos dos nossos foram perseguidos, silenciados e mortos. A câmera de Kleber observa o passado com calma e precisão, e é nesse ritmo que a dor se transforma em denúncia. O Recife filmado é uma cidade partida, onde elites se protegem atrás de muros altos enquanto o povo é deixado à própria sorte.

Há uma cena em que uma patroa rica depõe sobre a morte do filho da empregada, por negligência. A referência inevitável à morte do menino Miguel, de cinco anos, filho da empregada doméstica Mirtes, expõe um abismo que nunca se fechou. Há também um primeiro-tenente, afastado do Exército, que atua como matador de aluguel e contrata execuções; as vítimas, em geral, são as que não se conformam ao sistema. Policiais corruptos, universidades sucateadas, empresários aliados ao poder. Tudo soa familiar demais. É como se o tempo tivesse mudado apenas o figurino, mantendo a mesma encenação.
Mais do que um filme político, O Agente Secreto é um gesto de pertencimento. O Nordeste existe, produz, resiste e segue contando suas próprias histórias. Ao fim, a mensagem é clara: o país ainda desfila com fantasias antigas. Como lembrou Chico Science, “modernizar o passado é uma evolução musical”; fora do palco, porém, seguimos trocando o figurino sem mudar a partitura. Os arranjos podem soar mais limpos, mas a melodia permanece a mesma: “o medo dá origem ao mal”, e o “homem coletivo” sente a necessidade de lutar.


