.

Marco Nanini retorna ao Recife com o espetáculo ‘O Traidor’

ALLAN LOPES

“Prazer, sou Marco”, apresentou-se, de forma despretensiosa, o consagrado ator Marco Nanini à equipe do Giro. Ele poderia ter apenas acenado ou iniciado a conversa de outra maneira, mas escolheu palavras que qualquer anônimo usaria, em nítido contraste com o rosto que se tornou mais familiar que o de muitos parentes distantes, gravado na memória afetiva do país pelo capitão Severino de Aracaju, de O Auto da Compadecida; pelo doutor Teodoro Madureira, de Dona Flor e Seus Dois Maridos; e, claro, pelo inesquecível Lineu, de A Grande Família.

Uma galeria de personagens que começou a ser construída muito antes desses sucessos, mais precisamente em 1968, quando Nanini estreou nos palcos em uma montagem de Salomé, de Oscar Wilde. De lá para cá, foram décadas dedicadas a ampliar esse repertório que o consolidou como figura central da dramaturgia brasileira, com O Traidor sendo seu capítulo mais recente. A peça, dirigida por Gerald Thomas, está de volta ao Recife em curta temporada com sessões hoje e amanhã, às 20h, e domingo, às 19h, no Teatro Luiz Mendonça, no Parque Dona Lindu.

De forma bem-humorada, sem um enredo linear, o público é convidado a adentrar o psicológico de um homem isolado em uma ilha e entregue às suas loucuras, imaginações, problemas e alegrias. Para Nanini, é um papel que, como todos os demais, exige a verdade mais crua de si mesmo. “Eu me identifico com o teatro e com todas as emoções que me proporciona”, afirma ele, que divide a cena com Hugo Lobo, Ricardo Oliveira, Romulo Weber e Wallace Lau, quarteto responsável por povoar o imaginário do protagonista.

Nesse universo descontínuo, Nanini encontra um terreno familiar ao reencontrar Gerald Thomas, com quem havia trabalhado em Um Circo de Rins e Fígados há exatos 20 anos. Apesar de O Traidor não ser uma continuação literal, ambos reconhecem ecos temáticos do trabalho anterior, como se a parceria artística jamais tivesse sido interrompida. “Ele é a mesma pessoa de antes, mas múltiplo. Carrega várias ideias e tem uma cabeça cheia de possibilidades”, descreve.

Às margens do Rio Capibaribe, no Cais de Santa Rita, onde transcorria a entrevista, a cidade também inspirava suas reflexões. E Nanini, visivelmente à vontade, não disfarçava o encantamento. “O Recife, com sua história, sua beleza e toda a riqueza artística, envolve tudo aquilo que você ama e deseja”, disse, enquanto olhava deslumbrado para a escultura de Brennand. Filho de imigrante italiano, nasceu aqui em 1948 e morou no Pina até os dez anos, até a mudança para o Rio. Mesmo após tanto tempo, a cidade ainda lhe é íntima, e pequenas lembranças, como o sabor das pitombas encontradas pelo caminho, o transportam de volta à infância

Ao longo da carreira, Nanini absorveu lições fundamentais de mestres como os saudosos Aderbal Freire-Filho, Walmor Chagas e Paulo Autran, e hoje, aos 77 anos, segue com a mente aberta ao que a nova geração tem a ensinar. “O teatro promove esses encontros, e isso é fascinante”, celebra. Seu próximo projeto é um espetáculo de crônicas e músicas, intitulado Alma Brasileira, ainda sujeito a mudanças. “É um trabalho de porte reduzido, mas do tipo que gosto de fazer. Desde que seja arte e teatro, eu gosto”, diz. E essa sua paixão garante que, enquanto ele estiver lá, fazendo o que ama, haverá sempre um público para celebrá-lo. 

Compartilhe :
Twitter
LinkedIn
Facebook
WhatsApp
Telegram

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PUBLICIDADE