Pedro Cunha / Especial para o Giro
Neste mês de março, quando se celebra o Dia Internacional da Mulher, o Giro conversou com Fabiana Pirro, um dos nomes mais expressivos da cena cultural pernambucana, com uma trajetória que atravessa o teatro, o cinema e a pesquisa das tradições populares nordestinas. Aos 51 anos, ela também carrega um papel que considera central em sua vida: é mãe de Homero, de 21 anos.
O teatro, para Fabiana Pirro, nunca foi apenas uma profissão. É um território de encontro, um espaço onde o humano se encontra com o sagrado. Talvez essa relação com o movimento e a presença venha de muito antes do palco, da infância em Boa Viagem, quando dividia os dias entre o vôlei, o futebol e as corridas na areia da praia. Em cada personagem que atravessa seu corpo, em cada palco que pisa — da rua às salas de espetáculo — a atriz pernambucana reafirma um pacto silencioso com a arte: contar histórias como quem celebra a própria existência.
Antes de se tornar uma das presenças marcantes da cena teatral pernambucana, Fabiana percorreu o mundo. Começou a carreira de modelo aos 15 anos e passou uma década no circuito internacional da moda. Desfilava, viajava, trabalhava intensamente. Fixada em São Paulo, aos 25 anos, após a morte do pai, decidiu voltar para o Recife. A moda já não lhe despertava o mesmo sentido. Era preciso encontrar algo que a movesse de verdade.

Teatro como revelação
Fabiana já havia tido um primeiro contato com a cena ao participar, em 1999, da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, no Agreste. A estreia como Salomé marcou um dos momentos decisivos da carreira da atriz. Interpretar uma personagem complexa diante de plateias de até 10 mil pessoas por noite, conta ela, foi um mergulho intenso. “O medo fazia parte da experiência, mas também o aprendizado”, lembra.
Fabiana recorda também da acolhida dos mestres do espetáculo, como Xuruca e Plínio Pacheco, e da força simbólica daquela encenação. “Subir ao palco em Nova Jerusalém é mais do que atuar, é um ritual. O teatro é minha grande comunicação com o divino. É onde faço minhas entregas.”
Mas foi no retorno à cidade que a virada aconteceu de forma definitiva. Ela mergulhou na formação teatral ao lado de nomes como João Falcão e Lívia Falcão e passou pelo curso do Teatro Hermilo Borba Filho, espaço que formou gerações de artistas pernambucanos. Ali encontrou também colegas que se tornariam referências da dramaturgia brasileira, como Irandhir Santos, Arilson Lopes, Nicole Pastana, Aramis Trindade e Renato Góes. “Foi no teatro que eu escutei pela primeira vez a minha voz”, diz a atriz.


Nos anos seguintes, sua atuação foi se expandindo para além da interpretação. No início dos anos 2000, Fabiana também passou a atuar como produtora cultural. A experiência veio de forma natural, ainda nos tempos em que trabalhava ao lado da produtora Marcela Bergamo, organizando projetos que atravessavam moda, música e teatro. Para ela, a criação artística sempre foi um processo coletivo, que começa muito antes da estreia.
Esse olhar se aprofundou durante a participação no PIANE, projeto que reuniu atores em seis estados do Nordeste para pesquisar tradições populares e linguagens cênicas. A experiência marcou profundamente sua visão de arte. Foi ali que Fabiana percebeu que o teatro nordestino carrega uma força ancestral.


“O teatro popular do Nordeste é libertário. Ele nasce da mistura do caboclo, do indígena, das tradições ibéricas. É um teatro que une famílias, que celebra. Tudo é sério, mas estamos brincando, somos contadores de histórias”, reflete Pirro. Essa perspectiva moldou grande parte de sua trajetória artística.
Dos palcos à sétima arte
Em 2004, ao lado da atriz e diretora Lívia Falcão, fundou a Duas Companhias, coletivo que se tornaria um dos núcleos criativos mais relevantes da cena teatral pernambucana contemporânea. A parceria nasceu do desejo de experimentar, trocar experiências e viver o teatro de forma integral.
O espetáculo Caetana tornou-se um dos marcos da companhia. A montagem circulou internacionalmente, chegou à Bélgica e permaneceu 12 anos em cartaz. A peça apresenta a rezadeira Benta, que após indicar o caminho do além para várias almas perdidas, se vê diante de seu próprio encontro com a Caetana, a morte. Chegando ao Reino do Invisível, Benta reencontra as almas anteriormente encomendadas por ela, que aparecem em forma de bonecos.
Para Fabiana, o teatro não tem fronteiras: pode acontecer na rua, em grandes salas ou em espaços improvisados. O importante é a entrega. “Eu não abro mão de fazer teatro em qualquer lugar. Gosto de participar de tudo, do figurino à direção. O teatro faz parte da minha vida diária.”


Ao longo da carreira, a pernambucana também dividiu a cena com grandes nomes do teatro e do cinema brasileiro, como Edson Celulari, Ruy Guerra e Ernesto Piccolo. Em montagens como Dom Quixote, na qual interpretou Dulcineia, viveu entre Rio de Janeiro e São Paulo em temporadas intensas. Dessas experiências, guarda um ensinamento: a generosidade artística. “No teatro, a brincadeira só acontece se todo mundo estiver no mesmo lugar”, resume.
Entre seus trabalhos mais pessoais está Obscena, solo inspirado na obra da escritora Hilda Hilst, desenvolvido ao lado da atriz e diretora Luciana Lyra. A peça nasceu de um impulso íntimo: falar, no palco, aquilo que Fabiana gostaria de ter dito ao pai antes de ele ir para o “Azul, expressão que ela utiliza, inspirada em tradições indígenas, para falar da morte. A obra percorreu cidades brasileiras e também chegou a Portugal.
Depois vieram outros solos, como Cara de Pau e Medusa, este último apresentado em países como Portugal e França. Em Medusa, Fabiana aborda temas urgentes da experiência feminina, refletindo sobre violência, silêncio e resistência.
No audiovisual, Fabiana também construiu uma presença marcante. Atuou em filmes importantes do cinema brasileiro, como Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes; Sangue Azul, de Lírio Ferreira; e Big Jato, de Cláudio Assis. Também participou de trabalhos dirigidos por Murilo Salles, transitando entre linguagens com naturalidade.

Mais recentemente, integra o elenco do premiado O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, produção escolhida para representar o Brasil na disputa pelo Oscar. No filme, Fabiana interpreta a doutora Inês, personagem que protagoniza uma cena inusitada ao “contracenar” com um tubarão. Para ela, no entanto, não existe uma Fabiana diferente entre o palco e a câmera. “A concentração é a mesma. É como estar em um jogo”, diz.
Entre os projetos mais recentes, Fabiana prepara uma circulação nacional com o espetáculo Josephina, texto inédito da dramaturga e encenadora pernambucana Luciana Lyra. O texto é uma comédia ligeira feminista contemporânea inspirada na vida e na obra de Josefina Álvares de Azevedo, uma das primeiras feministas brasileiras de que se tem notícia. Figura central da luta pelos direitos das mulheres no país em meados do século 19, Josefina permanece ainda pouco conhecida do grande público, lacuna que o espetáculo busca iluminar ao revisitar sua trajetória com humor, reflexão e potência política.
Entre tantas personagens, Fabiana evita escolher uma favorita. Salomé, Maria, figuras do teatro popular nordestino, personagens do absurdo ou mulheres profundamente humanas: todas fazem parte de quem ela se tornou. “Sou uma colcha de retalhos de cada personagem que vivi.”

Depois de mais de duas décadas dedicadas à arte, Fabiana Pirro ainda mantém o mesmo desejo que a move desde o início: continuar ocupando a cidade com teatro. Seu maior sonho hoje, conta ela, é simples e grandioso ao mesmo tempo: “Quero ter um teatro. Um lugar que seja minha segunda casa.” Talvez porque, para ela, o palco nunca foi apenas cenário. É onde a vida encontra sua forma mais intensa de ser contada.


