Às vésperas de completar 30 anos de trajetória artística, Gerlane Lops olha para trás com a serenidade de quem construiu uma história sólida na música pernambucana, e ainda se permite brincar com o tempo. “Eu nem imaginava chegar aos 30 anos de idade, e hoje estou aqui comemorando três décadas de carreira”, diz, entre risos, a cantora em entrevista ao Giro, orgulhosa do caminho trilhado.
Mais do que uma artista de carnaval, como faz questão de frisar, Gerlane se define como fruto de uma construção diária. Ao longo dessas três décadas, consolidou-se como uma das vozes femininas mais importantes do samba em Pernambuco, abrindo caminhos para uma nova geração de mulheres no gênero. “Minha trajetória me molda todos os dias. Sinto orgulho de ser uma das pioneiras do samba no estado”, afirma.
Celebrar esse marco justamente no período momesco torna tudo ainda mais simbólico. “Eu nem consigo definir o peso e o tamanho disso. Me sinto muito lisonjeada, principalmente no carnaval, que é uma época com a qual me identifico profundamente”, declara.

Para Gerlane, o Carnaval de 2026 promete ser intenso. A artista explica que chega à folia com três produções simultâneas: sua banda principal, a Orquestra Recife de Bambas, regida pelo maestro Ruben França, e a orquestra do Galo da Madrugada. “É frevo até não acabar mais”, diz, explicando que sua equipe reúne cerca de 40 pessoas, entre músicos, bailarinos e produção.
Neste sábado (14), a cantora se prepara para viver mais um capítulo de sua história ao comandar, pelo 17º ano, um trio elétrico no Galo da Madrugada. “É um momento único. Não consigo explicar, mas é algo surreal”, resume. A relação com o maior bloco do mundo já rendeu episódios memoráveis, como em 2020, quando o trio em que se apresentava quebrou antes do desfile começar. Após quase duas horas de atraso, a solução foi descer e cantar no meio do público. “Foi um ano que ficou marcado”, lembra. Ela recorda também que participou do Galo pela primeira vez como convidada de Gustavo Travassos e, no ano seguinte, do Maestro Spok. Em 2011, substituiu a baiana Daniela Mercury, que na madrugada do próprio sábado de Zé Pereira avisou que não iria mais cantar, e a experiência foi tão bem-sucedida que garantiu à pernambucana o próprio trio.

Mesmo após tantos carnavais, o frio na barriga permanece. “Sempre dá. Não tem essa. Mas quando subo no trio e vejo aquele mar de gente, tudo passa. Costumo dizer que eu sempre me preparo para que o Galo dê certo. Ele dando, todo o carnaval deu certo”, conta. E a preparação para encarar a maratona começa meses antes. Entre ensaios e compromissos, a recomendação é clara: descanso e cuidados com a voz. “O ideal é dormir muito e evitar coisas geladas. Eu falo que é preciso dormir, mas eu mesma quase não consigo, de tanta ansiedade”, admite, rindo.
Além da tradição, a cantora também chega ao carnaval com novos projetos. Seu mais recente EP “Gerlane Lops Carnaval” traz faixas que reforçam a identidade pernambucana, como o hit “Pernambuco naturalmente incrível”, criado para divulgar a cultura e o turismo do estado. “A gente viajou por 10 cidades do Brasil divulgando a música e a cultura pernambucana. É muito gratificante levar nossa música para fora do Estado”, conta. O novo projeto inclui ainda o Hino de Pernambuco, arranjado com maracatu e frevo, e outras duas faixas: Glitter na Cara e o hino do Elefante de Olinda.

Para a musa da folia, o samba sempre foi uma raiz fundamental, mesmo em uma terra marcada pelo frevo. “Eu sempre busco colocar nossas raízes pernambucanas no samba. O artista pernambucano precisa tocar nossa cultura onde estiver. É tão nossa, tão única e eu sempre faço questão de colocar isso nas minhas canções”, reforça. O encontro definitivo com o gênero aconteceu em 2007, com a turnê Gerlane Lops em Tom de Samba, e se consolidou em 2008 com o disco Da Branca.
Mesmo com a agenda intensa, Gerlane mantém a energia e o bom humor. “Completar 30 anos de carreira é maravilhoso. Sou muito grata a Deus por ter chegado até aqui. A cada novidade que surge, me empolgo e continuo”, ressalta. Para ela, o carnaval é indissolúvel de sua história e afirma que “não existiria Gerlane sem o carnaval”. Ao resumir sua relação com a folia, a diva escolhe uma palavra que define o momento: gratidão. Entre sambas e frevos, Gerlane Lops segue dançando com a vida, deixando sua marca registrada no ritmo, na memória e na história de Pernambuco.



