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Crítica | Em ‘Gravidade’, o fim de um mundo é o recomeço do mundo

ANDRÉ GUERRA
Fotos: Petrus Cariry

Uma luxuosa mansão habitada por quatro personagens femininas parece um cenário improvável do apocalipse, mas, em Gravidade, ela é tanto o fim dos tempos quanto a possibilidade de recomeço. Longa de estreia do diretor pernambucano Leo Tabosa (de premiados curtas como Nova IorqueMarie e Dinho), o alegórico suspense parte de uma lógica de encenação teatral para subvertê-la por meio do próprio cinema fantástico.

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Logo no começo do filme, exibido na programação da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, somos apresentados a Nina (Hermila Guedes), que vive com sua mãe, Sydia (Clarisse Abujamra), na antiga casa da rica família. A empregada, Joana (Marcélia Cartaxo), desaparece a certa altura, enquanto as poucas notícias que chegam do mundo exterior falam de uma tempestade solar se aproximando, ameaçando toda a vida na Terra.

O verdadeiro colapso, porém, pode estar em outro lugar — que o diga Lara (Danny Barbosa), que aparece misteriosamente e é recebida com pavor e hostilidade por uma Nina cada vez mais convencida de que o mundo vai acabar naquela noite. Ou, talvez, esse mundo prestes a terminar seja apenas aquele que ela conhece.

Nina, personagem de Hermila Guedes, está cada vez mais convicta de que o mundo vai acabar

Duas marcantes participações de Helena Ignez, lenda do cinema brasileiro (de clássicos como O Padre e a MoçaO Bandido da Luz Vermelha e Copacabana Mon Amour), deflagram uma ousada mudança de registro em Gravidade. Caminhando com alguma rigidez pela corda bamba do registro teatral — evocado não apenas pelo cenário praticamente único, mas também pela marcação formal do texto e das interpretações —, o filme se entrega paulatinamente à escuridão e transforma os amplos cômodos da mansão em potenciais ambiências de terror.

O medo aqui, porém, se manifesta de várias formas e em diferentes vetores. O pavor do apocalipse se mistura ao medo da invasão domiciliar, que, por sua vez, se transmuta no medo de fantasmas — sobretudo no sentido figurado. Os homens da história, afinal, são todos fantasmas de um patriarcado opressor, responsável por diferentes traumas na vida daquelas mulheres.

Participação de Helena Ignez (à esquerda) no filme deflagra uma abordagem surpreendente no roteiro

Elas, as donas da casa, por sua vez, reproduzem essas violências de classe, gênero e raça, enquanto têm de se confrontar com a fenda aberta misteriosamente na cozinha (espaço associado à servidão), de onde se levantarão os corpos esquecidos, marginalizados, violentados, mas jamais sublimados. Atriz trans que vem ganhando cada vez mais espaço no cinema (Sol AlegriaBacurauSalomé), Danny Barbosa é, nesse sentido, o coração de Gravidade — a força disruptiva que rompe o padrão de convivência da elite.

Leo Tabosa, também responsável pelo roteiro, nem precisava verbalizar essa parábola para fazê-la ser sentida (“A humanidade transformou o mundo em um caos, então quero que você o reordene”, diz uma personagem em dado momento do filme). Auxiliado pela sempre refinada fotografia do cineasta cearense Petrus Cariry (Mais Pesado é o CéuA Praia do Fim do Mundo) e pela trilha sonora sombria de João Vitor Barroso, o diretor se lança ao arriscado desafio de tratar dessa quebra da “ordem social” no texto ao mesmo tempo em que, na estrutura, rompe o registro da “realidade” ao assumir uma poética metalinguagem.

Clarisse Abujamra e Marcélia Cartaxo completam o elenco de Gravidade, previsto para estrear em 2026 nos cinemas

A costura não é perfeitamente amarrada, até porque, ao final da curta duração de pouco mais de uma hora, nem todas as quatro personagens ganham vida para além de suas funções meramente simbólicas. A austeridade, por vezes, atrapalha confrontos que clamam por uma frontalidade maior, o que daria mais vida e humanidade a personagens como Nina e Joana.

O refúgio do cinema fantástico aqui, em particular nas belíssimas revelações feitas à luz de velas, é a chave para conferir um lirismo sincero a Gravidade, que escapa por pouco das armadilhas do horror alegórico contemporâneo (a tendência a sugerir tudo, as pausas artificiais, os signos ensimesmados) ao oferecer um inteligente exercício de observação. A fuga daquele cenário para o espaço de um cine-teatro é preciosa: uma crença honesta da obra na própria arte como veículo de transformação e, quem sabe, de milagres.

São raros os filmes e autores capazes de parar por um instante e olhar para si. Em seu primeiro longa, Leo Tabosa o faz mais de uma vez. O apocalipse de Gravidade, afinal, é apenas o começo.

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