Pedro Cunha
Especial para o Giro
O encontro entre o axé e o frevo dá o tom da agenda de Bell Marques em Pernambuco neste fim de semana. Com mais de 40 carnavais de carreira e reconhecido como um dos principais nomes da música de trio e de festa do país, o baiano é atração do Chocalho do Neno, neste sábado (7), e do Olinda Beer, no domingo (8). Aos 73 anos, depois de três décadas à frente do Chiclete com Banana e desde 2014 em carreira solo, Bell defende a proximidade entre os ritmos nordestinos. “Axé e frevo nascem do povo e da alegria coletiva. São ritmos que conversam, cada um com sua identidade”, defende o cantor em entrevista ao Giro.
Batizado Washington Marques da Silva, o artista nasceu em Salvador e construiu uma trajetória que reúne canto, composição, produção musical e atuação como multi-instrumentista: toca violão, guitarra e baixo. O interesse pela música começou ainda na adolescência, influenciado pelos irmãos que participavam de bandas. Antes de assumir os vocais, chegou a tocar teclado em apresentações e teve a primeira experiência em trio elétrico em 1979, no Trio Tapajós.
No início dos anos 1980, o baiano passou a integrar a banda Scorpius, que depois adotaria o nome Chiclete com Banana, grupo com o qual alcançou projeção nacional e ajudou a consolidar o axé music no mercado brasileiro, acumulando milhões de discos vendidos e presença constante nos grandes carnavais. Ele permaneceu na formação até 2014, quando anunciou a saída e iniciou um novo ciclo artístico.

Ao falar sobre os momentos decisivos da carreira, Bell aponta menos para números e mais para consciência de propósito. “A grande virada foi entender que a música podia ser meu caminho de vida mesmo. Quando vi o público cantando tudo junto, percebi que não era só um show, era uma missão”, enfatiza. A estreia oficial da fase solo aconteceu no Carnaval de 2014, com a criação do Bloco Vumbora, em Salvador. “Foi um recomeço cheio de coragem, mas muito verdadeiro comigo mesmo.”
Desde então, mantém agenda intensa de apresentações e projetos especiais. Com a experiência, ele diz que a preparação para a maratona carnavalesca ficou mais técnica. “Mudou o cuidado com o corpo, com a voz, com a equipe. Hoje eu entendo melhor o tempo das coisas.” A motivação, garante, segue igual. “A essência é a mesma: ver o fã sorrir, pular, esquecer os problemas.”
A relação frequente com o público pernambucano ao longo dos anos reforçou, conta o cantor, a leitura de proximidade entre linguagens musicais do Nordeste. Bell vê o diálogo entre axé e frevo como algo orgânico. “O frevo tem explosão, o axé também vem dessa mistura popular muito forte. Quando a gente troca e respeita, todo mundo cresce.” Para o cantor, essa convivência fortalece o Carnaval como espaço diverso e complementar.
Nos shows, parte do repertório é considerada obrigatória. “Tem canções que são compromisso com o folião”, diz, citando “Diga Que Valeu”, “Voa Voa”, “Selva Branca”, “Não Vou Chorar” e “100% Você”. “Essas músicas já são dos fãs. Se não cantar, eles cobram”, fala aos risos.
Na vida pessoal, é casado com Ana Marques desde 1981 e é pai de três filhos, entre eles Rafa e Pipo Marques, que também seguem carreira musical. A barba e a bandana se tornaram marcas registradas de sua imagem pública. Mesmo após mais de quatro décadas de estrada, ele afirma que o impacto do início de cada apresentação permanece. “O que ainda me emociona é o começo do show, o primeiro acorde. Isso nunca virou algo comum pra mim.”


