ANDRÉ GUERRA
Fotos: Netflix/Divulgação
Dando continuidade ao que se tornou a mais popular saga de mistério policial do cinema contemporâneo, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out coloca Benoit Blanc diante de seu caso mais existencial até agora. E quanto mais absurda a mágica, maior a curiosidade para demonstrar o maquinário do truque.
O detetive vivido por Daniel Craig é chamado para desvendar um aparente “crime impossível”: o assassinato de um padre durante um sermão diante de todo o rebanho da igreja. A chegada do jovem padre Jud (Josh O’Connor) ao lugar parece ter deflagrado uma teia complexa de situações — que envolve desde segredos paroquiais ocultos até sugestões sobrenaturais que a polícia não é capaz de solucionar.
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Entre Facas e Segredos (2019), o primeiro da franquia, usava o mote do mistério para expor o desespero da elite pela manutenção de seus privilégios, enquanto Glass Onion (2022), o segundo, satirizava o universo dos magnatas da tecnologia. Desta vez, Rian Johnson coloca o dedo na ferida da religião e critica sem rodeios a instrumentalização da fé em discursos de ódio, interesses financeiros e vaidade pessoal.
Assim como nos demais filmes da série, porém, a questão da pauta da vez não é um fim em Vivo ou Morto, mas, sim, parte da costura. Com o senso de humor permanentemente afiado e uma abordagem estética que concilia leveza e refinamento, o filme comenta assuntos diversos dentro desse macrotema da fé, tendo o reverendo Jud como bússola.

Nos outros filmes da saga, o roteiro elegia um suspeito fácil para servir de fio condutor e, assim, desconstruir toda a teia de enigmas em volta. Em uma história sobre o credo posto em cheque, nenhuma figura melhor para isso do que um padre moralmente tão cheio de dúvidas e ambiguidades. Ganhando mais um papel de destaque este ano, após The Mastermind e A História do Som, Josh O’Connor toma a empatia da plateia e corre com ela debaixo do braço, mesmo quando o personagem parece ganhar contornos sombrios.
A narrativa explora sua galeria de suspeitos — entre eles Martha Delacroix (Glenn Close), Dr. Nat Sharp (Jeremy Renner), Vera Draven (Kerry Washington), Lee Ross (Andrew Scott), Simone Vivane (Cailee Spaeny), Cy Draven (Daryl McCormack) e Samson Holt (Thomas Haden Church) — com uma caracterização mais detalhada e integrada ao mistério do que a dos antecessores. A maior duração e a concentração de força dramática naquele rebanho da igreja são essenciais para que Vivo ou Morto tenha mais tração narrativa, especialmente em comparação com o segundo filme da franquia.

Apesar de não reinventar o whodunnit, Rian Johnson consegue, a cada filme, subverter tropos e lições dele sem quebrar regras básicas, como: o detetive e os policiais nunca podem ser suspeitos; qualquer sugestão fantasmagórica precisa ser eventualmente elucidada, já que saídas sobrenaturais jogariam toda a investigação fora; todas as pistas devem levar a algum lugar, nem que ele seja apenas outra pista; sobretudo, não mostrar em tela como verdade algo que será mais tarde dado como mentira.
A ambição de Vivo ou Morto está em esticar as cordas dessas regras, criando uma sequência de viradas que desafia até os espectadores mais sagazes. Não poderia haver comentário melhor sobre a instrumentalização da credulidade alheia do que utilizar as próprias ferramentas do gênero para direcionar o olhar do público em diferentes direções e, no ‘momento da revelação’ — policial ou divina —, desvendar a ilusão.


