ANDRÉ GUERRA
Fotos: Disney/Divulgação
Para todo o sucesso inequívoco de Avatar e Avatar: O Caminho da Água, respectivamente lançados em 2009 e 2022, o público frequentemente se divide entre o deslumbramento irrestrito ao universo criado por James Cameron e a rejeição aos seus excessos (sejam de duração ou de sentimentalismo). Já em cartaz no Recife, Avatar: Fogo e Cinzas não deve mudar esse cenário de reações à saga de Pandora, pelo contrário: chega para consolidá-las de vez.
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Neste terceiro filme, a família Sully, liderada por Jake (Sam Worthington) e Neytiri (Zoë Saldaña), segue de luto pela perda do filho mais velho. Ao tentar atravessar uma perigosa região para resolver um impasse, eles são brutalmente atacados pelo Povo das Cinzas, seguidores da sanguinária Varang (Oona Chaplin), obcecada pelo poder do fogo. O grupo violento faz uma brutal aliança com o Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang), já ocupando o corpo de um Na’vi desde longa anterior — o que põe não apenas os Sully, mas todo o planeta em um risco nunca antes visto.

São várias as razões pelas quais Fogo e Cinzas não deve converter os desfavoráveis à experiência de Avatar, mas a principal delas é a simplicidade do texto. Vencedor do Oscar por Titanic e dono de três das cinco maiores bilheterias da história do cinema, James Cameron é um devotado da narrativa clássica romântica. Sua lealdade à estrutura tradicional da jornada do herói só perde para o seu perfeccionismo visual, que, aqui, segue tão superlativo quanto se espera.
Os protagonistas são cheios de sentimentos íntegros e personalidades bem delineadas — com destaque para a caracterização e fisicalidade de Oona Chaplin como Varang —, mas seguem seus arquétipos (o pai protetor em conflito, a mãe enlutada e mergulhada na raiva, o filho que se sente culpado pela perda do irmão, a filha com conexões místicas misteriosas) de maneira quase inflexível. Os personagens humanos, então, são, desde o último filme, propositalmente insípidos, funcionando como uma massa corporificada pelas armas, máquinas e aeronaves.
Como sempre, a beleza do trabalho de Cameron não está na subversão dessas tradições, mas no rigor com que harmoniza todas elas a partir do espetáculo que, novamente, se basta por ele mesmo. Fogo e Cinzas, nesse sentido, perde algum frescor na comparação com O Caminho da Água, já que vários dos cenários e situações aqui não soam apenas clássicas, mas também repetidas. O impacto sensorial da catarse das grandes batalhas, filmadas com a clareza e riqueza de detalhes tipicamente virtuosa do diretor, se mantém.

É de uma inocência quase infantil — ainda que claramente consciente — a maneira como vilões estão sempre voltando e reproduzindo as mesmas falas “malvadas”. Em tempos de cinismo e autoconsciência nos grandes blockbusters norte-americanos, Avatar é aqui o sumo da obra e das preocupações de Cameron com um cinema de fascínio puro e ingênuo com a natureza. E o impacto sensorial da catarse das grandes batalhas, filmadas com a clareza e riqueza de detalhes tipicamente virtuosa do diretor, se mantém com uma energia quase maníaca dessa vez.
Dificilmente aqueles que um dia se apaixonaram pela iconografia de Pandora, sua natureza cristalina e suas luzes fosforescentes vão abandonar o navio neste derradeiro da jornada dos Sully. Igualmente improvável, porém, é que aqueles que nunca compraram a psicodelia assumidamente cafona de Avatar passem a fazê-lo a partir de agora.


