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‘Aqui Não Entra Luz’ denuncia realidade das empregadas domésticas perpetuada por gerações

ANDRÉ GUERRA

Exibido em uma das mais comoventes e impactantes sessões da 12ª Mostra de Cinema de Gostoso, o documentário Aqui Não Entra Luz, dirigido por Karol Maia, é um duro retrato de uma realidade escravocrata que perdura até os dias de hoje. Os esforços para a mudança parecem, às vezes, iluminar a dor de tantas pessoas e famílias, mas muitas situações simplesmente não se alteram, apenas se transmutam.

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Produzido ao longo de muitos anos — e por pouco não concluído —, o filme, formalmente inquieto e narrado a partir de uma visão muito pessoal, revela cinco histórias de mulheres em diferentes estados do Brasil. Seus relatos profundamente humanos, por vezes carregados de humor e frequentemente dolorosos, expõem casos de violência, exploração, apagamento e degradação.

Uma das falas mais marcantes vem de uma personagem pernambucana, submetida durante muitos anos a uma relação de trabalho abusiva por parte de uma pastora. Apesar das especificidades do caso, ele é certamente um dos que melhor explicitam a dor da perpetuação de um ciclo de tiranias que abarca tantas mães pelo país, que, na tentativa de proporcionar um futuro diferente para seus filhos, acabam presas em ciladas ainda mais graves do que aquelas que buscavam evitar.

Na Bahia, outra personagem questiona a razão de se fazer um documentário sobre esse tema. “Você queria descobrir se alguma coisa realmente mudou?”, pergunta. Ao aceitar os silêncios de cenas-chave e fazer com que cada uma dessas mulheres se sinta parte de uma escuta verdadeira, que lhes concede voz e imagem, Aqui Não Entra Luz se torna também um poderoso trabalho de pesquisa que foge do clichê de despejar dados facilmente esquecidos.

A prioridade da diretora está na abordagem sensorial, que não se limita às chamadas “cabeças falantes”. Ela demonstra sempre disposição de compreender, de maneira sensorial, a vida das pessoas que retrata — e, para tanto, sua câmera não raramente arrisca movimentos soltos e instintivos. A falta de precisão nessa condução cênica é também um dos triunfos da cineasta, que acerta sobretudo no ritmo de cada uma das passagens pelos estados.

Ao expor ao espectador, desde o início, sua experiência pessoal com o tema e, gradualmente, revelar a amplitude da questão, Karol Maia constrói um estudo simultaneamente objetivo e afetuoso sobre como a história com a qual sempre teve contato é, na verdade, duramente universal.

O encerramento, com a participação de sua mãe, coroou um dos grandes momentos da Mostra de Gostoso — e explica a excelente repercussão que o longa vem conquistando em festivais pelo país, como o 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, a 19ª CineBH e a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Mais do que um ensaio sobre um tema politicamente atual como nunca, Aqui Não Entra Luz lança um farol de esperança no Brasil e em suas mulheres sem perder de vista o poder do audiovisual para intensificar suas presenças.

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