Pedro Cunha
Especial para o Giro
O Recife volta a ocupar um lugar especial na trajetória de Dilsinho neste sábado (15). Anos depois de escolher a cidade para a gravação do DVD Open House, o cantor retorna à capital pernambucana com o Pagode do Diferentão, projeto que troca a lógica convencional de uma apresentação por uma festa de longa duração. Palco 360°, mais de três horas de show, DJ mantendo a música em circulação e artistas locais fazem parte de uma noite pensada para ir além de uma sequência de sucessos. A ambição do projeto, conta o cantor em conversa ao Giro, é outra: transformar em experiência aquilo que começou como repertório e, de quebra, testar até onde o pagode pode se expandir sem deixar de ser pagode.
A ideia nasceu do álbum Pagode do Diferentão. A resposta às músicas, à estética e ao conceito levou o Dilsinho e sua equipe a perceberem que havia ali material para algo maior. O disco virou uma marca e passou a percorrer cidades brasileiras com uma estrutura própria.
“Desde a gravação do álbum, eu e minha equipe sentimos que esse projeto tinha algo de especial. Vimos a recepção do público, que gostou muito das músicas, da estética e do conceito do projeto, então começamos a construir algo maior”, conta o pagodeiro.

Não deixa de ser um movimento sintomático do lugar ocupado hoje pelo pagode. Se durante muito tempo o gênero encontrou no palco, na roda e no quintal seus territórios mais reconhecíveis, uma nova geração passou a disputar também grandes arenas, festivais e plataformas digitais. A roda continua lá, mas agora convive com direção criativa, cenografia, moda, DJs e projetos pensados para circular pelo país.
Dilsinho parece confortável nessa mistura. Aos 34 anos, o carioca da Ilha do Governador conta que construiu parte de sua identidade justamente evitando uma imagem excessivamente rígida do pagodeiro. Da música à roupa, destaca ele, fez do “diferentão” menos um apelido circunstancial e mais uma espécie de assinatura. “Sempre fui ‘diferentão’ com meu estilo quando a gente olha para outros artistas ou grupos de samba e pagode. Isso só foi crescendo e se aprimorando ao longo do tempo, mas sempre fez parte da minha identidade artística”, diz o artista.
No show deste sábado essa identidade ganha escala. O palco montado no centro da Cachaçaria Carvalheira, na zona sul da cidade, coloca o cantor cercado pelo público, enquanto a programação se estende para além de sua apresentação. Há DJ, abertura com a banda pernambucana Simples Olhar e um momento dedicado à roda de pagode. A intenção é evitar os silêncios habituais entre uma atração e outra.

Dilsinho resume a diferença de maneira simples: “Um show geralmente é algo mais curto, enquanto uma festa tem mais horas de duração”. No Diferentão, diz ele, a ideia é que as pessoas possam cantar, dançar, beber, conversar e voltar à música sem que a noite pareça dividida em blocos estanques.
Por trás da aparente espontaneidade, há uma operação considerável. Transportar um palco 360°, preservar o desenho da festa e adaptar a montagem a diferentes cidades está entre as partes menos visíveis do projeto. “Acredito que o maior desafio seja a infraestrutura. A gente tem um desenho de tudo da label e precisa de toda uma equipe para montar”, afirma.
O Recife, no entanto, não aparece nessa trajetória apenas como mais uma parada da turnê. A cidade já ocupa um capítulo na carreira de Dilsinho. Foi aqui que, em dezembro de 2019, ele gravou o DVD Open House, projeto construído em dois palcos e que reuniu convidados como Thiaguinho, Henrique & Juliano e Atitude 67. Agora, retorna com outro formato e encontra uma cidade cuja relação com o samba e o pagode é passada de geração em geração. “O legado de Pernambuco com o pagode é muito lindo. A tradição do Recife com o segmento é muito rica e já tem décadas. Estou bem animado para esse encontro”, antecipa o cantor.

Dilsinho revela que essa relação com os lugares por onde passa não fica restrita ao discurso. Uma das escolhas do projeto é abrir espaço para músicos, marcas e criadores de cada região. Ao lado da diretora criativa Luana Domachowski, ele também procura vestir peças assinadas por estilistas locais. Há nisso uma tentativa de impedir que uma turnê nacional simplesmente reproduza a mesma festa, indiferente à cidade que a recebe.
Para o cantor, a escolha também guarda uma lembrança de quando ele próprio precisava que alguém lhe abrisse uma porta. “Começos são importantes e podem ser difíceis para todo mundo. Eu recebi ajuda de diversas pessoas e sou muito grato por isso. Se hoje estou nesse lugar onde consigo ajudar outros talentos, por que não?”
Entre o romântico e o “diferentão”
A trajetória até aqui começou bem antes das grandes estruturas. Dilsinho ganhou o primeiro violão aos 13 anos e passou pelos bares e restaurantes da Ilha do Governador. Em 2009, formou o grupo Para de Kaô e, após o fim da banda, seguiu carreira solo. O primeiro álbum, lançado em 2014, abriu caminho para uma sequência de trabalhos que consolidaria seu nome no pagode romântico.
Vieram O Cara Certo, Terra do Nunca, Quarto e Sala, Open House, Garrafas e Bocas, a parceria Juntos, com o Sorriso Maroto, e os projetos Diferentão. No percurso, músicas como “Refém”, “Péssimo Negócio”, “Trovão” e “12 Horas” ajudaram a formar um repertório que hoje precisa dividir espaço com lançamentos recentes.
No show, essa seleção não obedece apenas à cronologia. Dilsinho confessa observar o comportamento do público e até as preferências de cada lugar. “A gente escolhe algumas músicas mais antigas e outras mais atuais, observando o que o público gosta e também respeitando o que cada cidade ou estado consome mais.”
Talvez esteja aí uma das pistas para entender a longevidade do pagode: sua capacidade de mudar de roupa sem abandonar certas estruturas afetivas. Amor, separação, desejo, reconciliação e mesa de bar continuam alimentando versos e refrões, ainda que agora possam chegar embalados por uma produção visual mais sofisticada.
Dilsinho vê com entusiasmo a presença crescente do gênero em espaços que antes pareciam menos disponíveis a ele. “É muito empolgante ver o pagode ocupando todos os espaços possíveis”, expõe o cantor. “Participa desse movimento significa também usar minha própria visibilidade para apresentar novos nomes”.
Depois do Recife, o projeto segue viagem, mas Dilsinho já olha para o próximo trabalho. Não entrega detalhes. Limita-se a dizer que terminou um projeto há pouco tempo e já trabalha em outro. Quando perguntado sobre o que ainda falta conquistar depois de mais de uma década de carreira solo, ele evita citar palco, prêmio ou número. Prefere algo menos mensurável. “Meu maior sonho é continuar sonhando”, responde.
Essa fala pode soar abstrata, mas combina com alguém que transformou um álbum em festa, o nome de um projeto em identidade e agora chega à capital pernambucana disposto a passar mais de três horas tentando provar que, para o pagode, talvez o palco realmente tenha ficado pequeno.


