Pedro Cunha
Especial para o Giro
Depois de anos associado ao romantismo do pagode e ao fenômeno do “Tardezinha”, Thiaguinho agora coloca a black music no centro do palco com a turnê “Bem Black”, que desembarca em Pernambuco neste sábado (23), no Classic Hall. Inspirado nas sonoridades do soul, do R&B e dos bailes negros que ajudaram a moldar parte da música popular brasileira, o espetáculo revela uma camada mais íntima das matrizes musicais que acompanham o cantor desde antes da fama.
Muito antes de se tornar um fenômeno de público, Thiaguinho já crescia ouvindo artistas como Tim Maia, Cassiano, Wilson Simonal e Sandra de Sá. Agora, depois de consolidado como um dos principais nomes do pagode brasileiro, ele transforma essas influências em eixo central da nova turnê.
Em entrevista ao Giro, o cantor conta que “Bem Black” nasceu a partir do álbum homônimo lançado recentemente, mas vai além da ideia de simplesmente transportar músicas do estúdio para o palco. O projeto, segundo ele, funciona como um conceito artístico que reorganiza estética, memória afetiva e heranças sonoras dentro do espetáculo. O pagode continua presente, mas agora dividido com guitarras funkeadas, metais inspirados na soul music, grooves setentistas e elementos visuais que remetem diretamente aos bailes black das décadas de 1970 e 1980.
“O pagode que a gente conhece nasceu da cultura preta. Nasceu no subúrbio, no samba, de gente que carregou na voz uma dor e uma alegria muito específicas”, afirma Thiaguinho. “O ‘Bem Black’ pra mim foi um ato de reconhecimento; de dizer ‘eu sei de onde eu vim e quem abriu esse caminho’.”
Para além do “Tardezinha”
A nova turnê também revela um artista interessado em ampliar a própria imagem sem abandonar aquilo que o tornou popular. Existe uma geração inteira que conhece Thiaguinho a partir do “Tardezinha”, dos grandes sucessos românticos e do pagode que dominou rádios e plataformas digitais nos últimos anos. “Bem Black”, porém, apresenta outra camada dessa construção artística.
“Desde menino eu ouço Tim Maia, Cassiano, Wilson Simonal. Isso acontece desde quando eu ainda nem sabia que ia ser cantor”, revela o artista. “O ‘Bem Black’ não é um Thiago mostrando mais um pouco das suas influências, mas talvez uma versão que algumas pessoas ainda não tivessem tido a chance de conhecer.”
Essa atmosfera aparece tanto na direção musical quanto na estética do espetáculo. A turnê bebe diretamente da energia dos bailes black brasileiros sem perder o caráter popular que transformou Thiaguinho em um artista de massas. No repertório, além das faixas do novo projeto, o público também deve encontrar sucessos da carreira solo e clássicos do período em que o cantor esteve à frente do Exaltasamba.
Música preta como memória
Mais do que revisitar sonoridades, “Bem Black” também nasce de um reencontro com a própria identidade. Em um momento em que artistas brasileiros voltam o olhar para discussões sobre ancestralidade e pertencimento, Thiaguinho transforma essas questões em eixo central da turnê sem transformar o palco em discurso panfletário, mas também sem suavizar o significado político de valorizar a música preta brasileira.
“A gente vive um tempo em que falar sobre identidade negra é necessário e urgente, mas, para mim, não foi uma decisão qualquer. Foi uma decisão de alma”, expressa o cantor. “Quando eu olhei para o repertório, a estética, esses artistas que me formaram, entendi que fazer esse projeto era também um ato de amor. Amor pela minha história.”
A declaração do artista, nascido em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, ajuda a entender por que “Bem Black” soa menos como tendência e mais como reencontro. “Eu espero que as pessoas saiam do show se sentindo lembradas”, explica Thiaguinho. “Sabe aquela sensação de ouvir uma música e falar ‘nossa, essa música é minha’? Não porque você a escolheu, mas porque ela te escolheu? Minha maior vontade é essa.”
Neste sábado, Thiaguinho sobe ao palco transformando memória em festa. Entre grooves setentistas, sucessos do Exaltasamba e hits da carreira solo, “Bem Black” parece menos um desvio na trajetória do cantor e mais a revelação de algo que sempre esteve ali.


