ANDRÉ GUERRA
Fotos: Waner/Divulgação
Das dezenas de adaptações cinematográficas de O Morro dos Ventos Uivantes, esta versão protagonizada por Margot Robbie e Jacob Elordi, em cartaz nos cinemas a partir desta quinta-feira (12), deve se tornar a mais controversa. E não é coincidência o fato de a direção ser, desta vez, de Emerald Fennell. Na verdade, o projeto não é uma adaptação pretensamente definitiva de uma das mais conhecidas narrativas de toda a literatura e, sim, uma fabulação hiperestilizada dela.
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Lançado em 1847, o livro de Emily Brontë atravessou os séculos rendendo tantas leituras e reimaginações quanto possível. A realizadora britânica, que venceu o Oscar 2021 de Melhor Roteiro Original por Bela Vingança, se apropria da premissa de “O Morro dos Ventos Uivantes” (com aspas no título mesmo) e, apesar da mesma estrutura-base, faz um filme inteiramente seu — o que já é esperado provocar reações polarizadas.

Na trama, novamente, Catherine e Heathcliff vivem juntos desde pequenos, sendo ele um órfão adotado e explorado pelo pai dela. A amizade evolui para uma paixão intensa, impedida de ser vivida quando Cathy decide se casar com o abastado Mr. Linton (Shazad Latif). Rejeitado, o jovem desaparece mundo afora, enquanto sua grande paixão vive anos com o novo marido. O retorno do agora rico Heathcliff, porém, vai bagunçar tudo e despertar os instintos mais obsessivos do amor que ali existiu.
“O Morro dos Ventos Uivantes” abre com a imagem de um enforcamento público ao som de gemidos e destaca, em close-up, um dado pitoresco do corpo da vítima. Acompanhada pelo orgasmo coletivo que toma conta do vilarejo, essa sequência estabelece o tom a ser traçado por toda a projeção, e Emerald Fennell se mantém fiel a essa proposta lasciva que já havia “escandalizado” em seu filme anterior, Saltburn (um dos mais vistos de 2023).

Apesar de profunda e verdadeira, a conexão entre Cathy e Heathcliff é atravessada por ódio, sentimento de abandono, frustração de classe e sede de poder. Sempre se tratou de um romance carregado de toxicidade, mas o que Fennell traz aqui é uma camada extra de fetiche e fluidos corporais.
A diretora compreende que a base do amor em “O Morro dos Ventos Uivantes” já é apodrecida em violência e subjugação desde a infância dos protagonistas (fase em que são interpretados pelos excelentes Charlotte Mellington e Owen Cooper). E, ciente de que Margot e Jacob estão entre os astros mais cobiçados hoje, ela intensifica a sensualidade deles sem fugir da morbidez da história.

No auge da sua famigerada vocação pop, Fennell frequentemente substitui a construção dramática sólida das situações por imagens com ares de videoclipe, especialmente nas passagens de tempo embaladas por canções originais de Charli XCX. A escolha dilui parte do impacto dos reencontros e a densidade do sofrimento, pontuado pelo texto mas não suficientemente assimilado pela plateia. Ela não se aprofunda tanto quanto promete, inclusive, na esfera sadomasoquista latente da adaptação, mas enfatiza bem o desejo sexual como motor narrativo — levando os rumos da segunda metade, sobretudo, a caminhos drasticamente distintos.
A estética exuberante não poderia dialogar melhor com a loucura do casal. No lugar de provocar maravilhamento, a artificialidade de conto de fadas da direção de arte sufoca os personagens em vermelhos-sangue e azuis escuros encardidos. É um amor doente, mas que encontrou neste “O Morro dos Ventos Uivantes” uma cineasta que não faz pouco dele e, ao mesmo tempo, está disposta a expor e pulverizar a sua perversidade.


