DERICK SOUZA
O Carnaval de Rua de São Paulo, que há pouco mais de uma década passou por uma verdadeira reinvenção, tem encontrado em Pernambuco uma de suas maiores fontes de inspiração. Ritmos, artistas e até símbolos visuais do carnaval pernambucano atravessaram estados e hoje ajudam a moldar a maior festa popular da capital paulista.
Um dos exemplos mais evidentes dessa conexão é o “Forrozin”, comandado pela cantora Mariana Aydar. Criado em 2018, o bloco chega à sua sétima edição celebrando a cultura nordestina e, neste ano, tendo Pernambuco como tema central. Embora paulista de nascimento, a artista construiu uma relação profunda com o forró e com o Nordeste desde a infância, quando conheceu o Rei do Baião, artista que a apadrinhou e marcou definitivamente sua trajetória pessoal e musical.

“Meu primeiro encontro com o forró aconteceu da maneira mais linda possível. Foi com Luiz Gonzaga quando eu tinha apenas 6 anos. Na época, ele me presenteou com uma boneca, mas ele havia me dado mais do que isso. Me deu esse amor e esse respeito pelo forró, que atravessou toda a minha vida”, diz a cantora em entrevista ao Giro. Mariana reforça ainda que teve sua primeira banda profissional dedicada ao gênero e vê no ritmo um elo afetivo que se estende à família e às relações pessoais.

A escolha por Pernambuco, segundo ela, nasce do encantamento com a pluralidade cultural local. Cinema, música, artes visuais e manifestações populares formam um conjunto que, na visão da artista, é impossível de ser resumido em um único desfile, mas que pode ser celebrado em sua diversidade. Para isso, Aydar convidou os cantores pernambucanos Joyce Alane e Fitti, ambos indicados ao Grammy Latino no ano passado, reforçando o protagonismo de novos nomes da música produzida na região.
“Eles trazem autenticidade, força vocal e uma identidade muito própria. Isso é algo que vejo muito nos artistas daí”, afirma. Para a cantora, o público paulistano responde com entusiasmo quando propõe um mergulho em identidades culturais tão específicas. “É uma cidade formada por misturas. Existe um acolhimento real, uma alegria muito grande em estar perto dessa cultura que, muitas vezes, está distante geograficamente, mas muito próxima emocionalmente”, pontua.

Essa ponte entre Pernambuco e São Paulo também se manifesta no Bicho Maluco Beleza, bloco liderado pelo ícone Alceu Valença. Em 2026, a agremiação completa 11 anos de desfile em São Paulo, enquanto no Recife chega apenas à sua segunda edição, revelando um movimento curioso de consolidação fora do estado de origem antes de ganhar força em casa.

Responsável pela realização, a Pipoca, considerada o maior hub de Carnaval de Rua do Brasil, ocupa papel central nesse processo. Fundada por Rogério Oliveira, a empresa nasceu do desejo de transformar o paulistano em protagonista da festa, estimulando a ocupação das ruas não apenas durante a folia, mas ao longo de todo o ano. Inspirado pelas oficinas de percussão e pelo modelo democrático dos blocos do Rio de Janeiro e, sobretudo, de Olinda, o empresário ajudou a estruturar um carnaval gratuito, que hoje mobiliza milhões de pessoas.

“O Carnaval de São Paulo bebeu muito na fonte de Pernambuco, especialmente no modelo de ocupação do espaço público e na musicalidade”, explica Rogério. Segundo ele, referências como os pífanos de Caruaru e a obra de artistas como Alceu Valença influenciam diretamente diversos blocos paulistanos. Não por acaso, símbolos tradicionais como a sombrinha do frevo se tornaram presença constante nos desfiles.

Em 2026, a expectativa é que o desfile do Bicho Maluco Beleza no Recife, marcado para acontecer neste domingo (8), reúna entre 700 mil e 1 milhão de pessoas na Rua da Aurora, número superior ao público registrado em São Paulo. Na capital paulista, o bloco sai às ruas no sábado (7) e deve reunir cerca de 400 mil foliões. Para Rogério, apesar da trajetória mais longa em São Paulo, o retorno do bloco à terra de Alceu carrega um significado especial. “Hoje, Pernambuco é o destino que tem mais sentido para a gente. É a casa dele. É onde tudo acontece. Ver o bloco crescer e ser abraçado pelo público pernambucano tem um peso simbólico enorme”, ressalta.
Entre memórias afetivas, trocas culturais e ocupação democrática das ruas, o diálogo entre Pernambuco e São Paulo mostra que o Carnaval ultrapassa fronteiras geográficas. Mais do que uma festa, ele se afirma como espaço de encontro, identidade e pertencimento, onde tradições se renovam sem perder suas raízes.


