Pedro Cunha / Especial para o Giro
Presença constante no Galo da Madrugada há mais de duas décadas, voz frequente nos carnavais tradicionais do interior e criador de um bloco próprio que mistura tradição e inovação, Geraldinho Lins construiu uma trajetória em que o carnaval pernambucano é palco, matéria-prima e missão artística. Entre trios elétricos, praças do Agreste e festas autorais, o cantor transforma a folia em território de encontro com o público. “É uma fusão de ritmos e celebração da cultura popular”, diz ele nesta conversa ao Giro.
É com esse mesmo espírito que o projeto ganha forma a cada nova edição no Catamaran, no Bairro de São José, onde Geraldinho comanda o “Num Pare Não” como um grande ensaio aberto de carnaval. A festa, que chega à quinta edição neste sábado (7), reúne mais de três horas de show, repertório que atravessa seus 35 anos de carreira e participações especiais, como a de Lucy Alves, além de apresentação do grupo Samba Black. No set, frevo, coco de roda, ciranda e caboclinho dividem espaço com rock, pop e MPB em arranjos “com sotaque da terra”, como o cantor define.
A maratona que embala esse período é intensa. Do dia 6 até o fim do carnaval, Geraldinho chega a fazer cerca de 15 shows. Para ele, o volume não pesa, mas energiza. “A partir do dia 6, a gente começa esse momento lindo de folia. Na verdade, já está rolando há algum tempo. Já venho misturando aos pouquinhos no show, fazendo metade forró, metade carnaval, porque já vai entrando nesse clima de verão”, conta. A transição é gradual e consciente. “É uma época que eu amo muito.”


Sertanejo de Serra Talhada, com formação musical também marcada por Caruaru, ele carrega no repertório a geografia afetiva do Estado. “Eu sou do sertão, mas fui criado no litoral, então tenho essa identidade cultural muito forte dentro do aspecto musical.” O resultado é uma obra autoral com mais de 200 canções e uma leitura de carnaval que não se limita ao frevo: abraça baião, xote e ritmos de raiz. “Tem cidades que eu toco no São João e toco no Carnaval. É uma relação muito íntima. A música e a arte são ponte pra chegar nessas pessoas.”
No Galo da Madrugada, onde já esteve como folião, convidado e artista, ele encontrou uma espécie de casa simbólica. “Falar do Galo é falar de realização de um sonho que a gente vem construindo. Há 22 anos tive o privilégio de sair com o meu próprio trio e a gente vem repetindo isso desde então.” O repertório, nesse contexto, é assumidamente pernambucano. “É todo voltado para os ritmos daqui. Cada ano é um desfile diferente, que me faz crescer como pessoa e como artista.”
O mesmo respeito aparece quando fala dos carnavais tradicionais do interior. O Papangu de Bezerros, as festas em Nazaré da Mata, a “Mulher da Sombrinha” em Catende estão entre suas paradas cativas. “Eu sou simplesmente apaixonado pelo carnaval do interior de Pernambuco, com suas tradições”. Ele cita ainda Salgueiro, Triunfo, Pesqueira e Arcoverde como territórios de identidade forte. “Os carnavais tradicionais são o alicerce, a base, pra depois a gente inovar, sem perder a raiz.”

Sobre a diferença de energia entre megablocos e festas menores, ele é direto: “Não há diferença. Há uma igualdade no carinho, no afeto, no brincar.” Com o tempo, diz ter acumulado mais que plateia. “Eu tenho colecionado amigos, admiradores e fãs. O público pernambucano me dá um carinho muito grande.”
A preparação para atravessar a temporada inclui técnica e espiritualidade. “Tenho encontros com fonoaudióloga, otorrino, personal, faço preparação mental e espiritual com as minhas orações”, afirma o cantor, acrescentando que hidratação e foco também viram regra.
Para Geraldinho, na montagem do repertório, tradição é ponto de partida, não de limite. “Meu repertório de carnaval tem como alicerce frevos, caboclinhos, cirandas e maracatus, cantando os grandes clássicos.” Ao mesmo tempo, ele cria blocos e medleys que misturam épocas e estilos. “Coloco MPB, pop, reggae em ritmos pernambucanos. Consigo chegar a públicos diversos mantendo minha identidade.”

Depois de tantos carnavais, Geraldinho revela que a emoção segue intacta. “Eu vivo emocionado. Cada ano fico mais à flor da pele, mais exigente.” Sobre as mudanças na festa, ele vê avanço com responsabilidade. “As transformações são benéficas. As fusões trouxeram o mundo para perto do frevo e do maracatu. Isso é importante, sem perder a essência.”
No resumo que faz da própria trajetória, a definição de Geraldinho vem em trio elétrico de palavras: “Missão, celebração e trabalho.” E conclui como quem ainda vai subir ao palco: “O carnaval é essa brincadeira, essa irreverência, essa leveza de entregar um espetáculo num momento de pura emoção e gratidão.” Evoé!


