Pedro Cunha — Especial para o Diario
Se a vida de Emilie Natacha Lesclaux fosse um filme, o Recife não seria apenas cenário: teria voz, ritmo e presença dramática. Produtora cinematográfica e cientista política francesa radicada no Brasil, ela chegou à cidade em 2002 para uma temporada breve, quase um prólogo profissional, e acabou encontrando aqui o eixo da própria narrativa. Entre sets improvisados, salas de cinema históricas, a rotina da maternidade e uma cena cultural em ebulição, Emilie construiu na capital uma trajetória em que trabalho e vida caminham juntos, misturando cinema, afeto e pertencimento como quem aprende, aos poucos, a habitar um personagem que passa a ser também casa.
Nascida em Bordeaux, em 12 de setembro de 1979, formada em Ciências Políticas e cooperação internacional pela Sciences Po Bordeaux, Emilie nunca foi estranha ao cinema. “Eu gostava muito de escrever histórias, participava de cineclubes e festivais de curtas. Quase fui para uma escola de cinema, mas decidi ter uma formação mais aberta”, recorda em conversa com o Viver. A escolha por uma formação ampla parecia adiar o cinema, mas, na prática, preparava o terreno. “Quando surgiu a vaga no Consulado, eu não sabia nada da cidade, mas achei interessante ter uma experiência de trabalho no Brasil.”
No Consulado da França para o Nordeste, Emilie atuava na área de cooperação cultural, com forte ligação com projetos de cinema. Foi nesse ambiente que conheceu Kleber Mendonça Filho, então jornalista e programador da Fundação Joaquim Nabuco. “Fazíamos retrospectivas de cinema francês, fomos nos conhecendo e eu acabei ficando”, rememora. Quando o contrato terminou, a permanência deixou de ser provisória. “Tentei trabalhar na minha área, mas não havia oportunidades. Nesse meio-tempo, comecei a ajudar Kleber na produção de curtas, fazendo um pouco de tudo.” O gesto informal virou aprendizado; o aprendizado, profissão. “Foi um processo muito natural e progressivo.”


A cidade, naquele momento, também se transformava. “Percebi rapidamente que havia algo muito interessante acontecendo no Recife, especialmente no campo da cultura. Essa mistura muito peculiar de tradição, folclore e modernidade atravessa todas as gerações.” A cena audiovisual crescia em rede, impulsionada por grupos de amigos, políticas de incentivo e um desejo coletivo de filmar. “Com as políticas de incentivo à cultura que passaram a se consolidar no país e no estado, a produção em Pernambuco foi crescendo.” Foi nesse contexto que Emilie se especializou como produtora e ajudou a estruturar uma filmografia decisiva nos longas O Som ao Redor, Aquarius, Bacurau, além de contribuir para a criação do Janela Internacional de Cinema do Recife, hoje um dos principais festivais do país.
Esse aprendizado não veio apenas dos filmes, mas do modo de fazê-los. “Uma cidade que me ensinou a trabalhar de forma coletiva, artesanal e criativa”, afirma. “Aqui aprendemos a fazer filmes mesmo com muitas limitações, o que nos obriga a pensar fora da caixa.” Fora do set, a capital também se infiltrou na vida cotidiana. “Já morei em bairros muito diferentes. Antes tinha hábitos perto do mar e hoje moro perto do Parque das Graças, onde ando de bicicleta ou a pé todo dia.” A rotina mistura trabalho e afeto: levar os filhos gêmeos, Tomás e Martin, à escola, ir à feira de orgânicos, encontrar amigos para um café. “Ver filmes no Cinema São Luiz ou no Cinema da Fundação virou mania local.”
A parceria profissional e afetiva com Kleber atravessou o tempo e os projetos. “Ele é essencialmente a mesma pessoa que conheci no início. Os filmes cresceram, mas a forma de pensar e de trabalhar é muito parecida.” Ainda assim, diz ela, “ele não deixa de me surpreender a cada novo trabalho”. Juntos, aprenderam com cada filme, com cada equipe e com a circulação internacional, construindo uma trajetória marcada pelo rigor artístico e pela colaboração.


Esse percurso chega agora a O Agente Secreto, longa que estreou em Cannes com prêmios de melhor direção e melhor ator, ampliando ainda mais o alcance internacional da dupla. Diante da possibilidade de o filme representar o Brasil no Oscar, Emilie evita previsões e discursos triunfalistas. “Vamos seguir até onde o filme nos levar”, declara de forma taxativa. Para ela, o mais significativo é o encontro com o público. “É um orgulho e uma responsabilidade ver as pessoas vibrando com imagens e sons de um lugar que, muitas vezes, nunca visitaram. A gente não para de se surpreender com o quão universal pode ser um filme com uma identidade local tão forte.”
Em 2016, o vínculo com a cidade ganhou reconhecimento formal com o título de cidadã recifense. Ainda assim, a identidade segue em movimento. “Depois de tanto tempo vivendo em outro país, a identidade fica complexa”, reflete Emilie. Filha de pai francês e mãe argentina, criada entre línguas e países, Emilie conclui: “Hoje, já não sei muito bem de onde sou. Carrego essas identidades comigo.” Talvez por isso o Recife tenha sido menos destino e mais encontro. Um lugar que, para ela, vida, cinema e afeto aprenderam a caminhar juntos, cena após cena.


