ALLAN LOPES
Por muito tempo, Marcos Porto acreditou que sua história estava escrita em linhas retas e cálculos exatos. Formado em Engenharia Civil, construiu uma carreira sólida na área. Aos poucos, porém, a vontade de pintar, adormecida desde a infância, foi falando mais alto. Ressurgiu primeiro como passatempo, depois como refúgio e, finalmente, como missão de vida. Em comum entre os dois ofícios, o artista plástico gaúcho explora o rigor das formas. Por outro lado, a grande diferença é a liberdade e as cores vibrantes do Recife, cidade que escolheu para viver.
O impulso inicial veio do cansaço. A profissão que exerceu por 25 anos em grandes corporações lhe trazia angústia e a sensação de ter uma vida engolida pelo trabalho. “Eu acabei esquecendo totalmente desse meu lado de artista”, lamenta Marcos, em conversa com o Viver. Na tentativa de reencontrar essa face perdida, e na contramão da rotina exaustiva, ele decidiu entrar um dia em uma loja de materiais de arte, sem nunca ter feito um curso sequer. Comprou tela, tintas e pincéis e, a partir daí, passou a pintar todas as noites ao chegar em casa.
A busca por uma vida diferente teve suas idas e vindas. No fim dos anos 1990, viveu um autoexílio criativo na Serra Gaúcha. Lá, longe dos canteiros de obra, ele se dedicou apenas à pintura e começou a colher os primeiros frutos. A renda incerta da arte não se equiparava à segurança da engenharia. Assim, após alguns anos, ele retornou à profissão de origem, deixando a pintura novamente em standby. Até que, já morando no Rio de Janeiro, em 2010, tomou a decisão definitiva de sobreviver apenas das artes plásticas.





Seu último ato como engenheiro foi participar de um projeto que se tornaria ícone da arquitetura e (mais recentemente) da teledramaturgia: o Edifício Ventura Corporate, erguido na Avenida República do Chile, no Centro do Rio. O prédio passou a ser cartão-postal da cidade e, em 2025, se tornou a sede da companhia aérea TCA no remake de Vale Tudo. “Vê-lo na TV trouxe de volta um orgulho por ter participado”, celebra. “Como o engenheiro que não deixou de existir, me emocionou muito”, garante Marcos.
Apesar de ter largado a engenharia, a marca do ofício antigo simplesmente migrou para as telas. “Trabalho muito com círculos, retângulos, retas, curvas e todos os meus quadros acabam tendo, digamos, uma fórmula matemática”, brinca ele. Ao mesmo tempo, há uma profusão de cores que nenhum projeto de construção jamais previu. “Meu trabalho é exato, claro, mas às vezes puxo para algo mais orgânico”, explica ele, que já fez telas exclusivas para a atriz Hermila Guedes, a cantora Lia Sophia, a jornalista Fabiane Cavalcante, entre outros.

Desde 2019 fixado no Recife, o artista atribui à cidade a explosão cromática de sua obra. Sua ligação com a capital pernambucana, porém, remonta a uma temporada de oito anos morando na capital, entre 1986 e 1994. “Mesmo começando a pintar profissionalmente no Rio, em 2010, acho que meu diálogo com a arte recifense já estava presente”, diz. Entre linhas e formas, o Recife está lá, não como cenário, mas como cor e sentimento.


