ANDRÉ GUERRA
Fotos: Mubi/Divulgação
Algo está muito errado com a escritora Grace (interpretada por Jennifer Lawrence). Desde que se mudou com o marido, Jackson (Robert Pattinson), para uma casa de campo isolada e começou a criar o filho recém-nascido, ela parece ter entrado em uma espiral de depressão e autodestruição. As discussões do casal aumentam exponencialmente, enquanto os sinais de que algo terrível está prestes a acontecer surgem até nos sons da natureza ao redor.
Em Morra, Amor, já em cartaz no Recife, a cineasta Lynne Ramsay (dos igualmente perturbadores Precisamos Falar sobre Kevin e Você Nunca Esteve Realmente Aqui) adapta o livro homônimo da autora argentina Ariana Harwicz, publicado em 2012. Narrada pela perspectiva da protagonista, a obra original era impregnada da subjetividade de uma mulher em colapso — ideia transformada agora na tela em um redemoinho sensorial de energia vulcânica.

Jennifer Lawrence venceu o Oscar de Melhor Atriz aos 22 anos por O Lado Bom da Vida, em 2013. Em 2017, assumiu o papel mais desafiador de sua carreira com o controverso Mãe!, trabalho que, aliado ao desejo de se dedicar à vida pessoal, levou a atriz a um longo afastamento dos sets, interrompido apenas por participações menores ao longo de oito anos. Agora, com Morra, Amor, ela retorna às pressões extremas da maternidade, mas de maneira radicalmente diferente: se no filme de Darren Aronofsky era alvo da brutalidade, aqui sua presença se torna o próprio agente da violência.
Com toda a encenação de Lynne Ramsay apoiada em seu magnetismo, Jennifer Lawrence se entrega sem qualquer rede de segurança e com total fisicalidade ao papel de Grace. O humor ácido, contraposto a um olhar cada vez mais distante, mantém o espectador envolvido durante quase toda a projeção, ainda que o roteiro cedo apresente sinais de esgotamento.

Pouco é desenvolvido sobre os coadjuvantes, como a sogra (vivida pela veterana Sissy Spacek), única base dramática mais palpável aqui, e o motoqueiro misterioso (Lakeith Stanfield), que aparece em flertes de devaneios óbvios em suas intenções simbólicas mas pouco claro em sua contribuição para a espinha dorsal narrativa. O que interessa, na prática, são os surtos da protagonista em uma jornada irrefreável de rejeição ao papel que lhe foi imposto. Para sustentar essa experiência sensorial, porém, o texto exigiria uma progressão dramática que ultrapassasse o caos mental meramente ilustrativo.
Um dos nortes de Morra, Amor é claramente o clássico Uma Mulher Sob Influência, de John Cassavetes, mas o resultado carece justamente da evolução dramática que ultrapasse a superfície do tema. No centro gravitacional de tudo, Jennifer Lawrence vai fundo nas investidas físicas animalescas, mas o filme que orbita sua atuação não termina muito distante de onde começou.


