ANDRÉ GUERRA
Fotos: Netflix/Divulgação
Nove potências nucleares no planeta em um período em que os nervos de muitas delas parecem frequentemente à flor da pele. A frase parece distópica, mas é a sombria realidade atual e sobre a qual se debruça Casa de Dinamite, novo filme de Kathryn Bigelow — primeira mulher a vencer o Oscar de Melhor Direção, com Guerra ao Terror, em 2010 —, disponível no catálogo da Netflix.
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Oito anos após seu último trabalho, Detroit em Rebelião, a cineasta retorna com uma situação hipotética apavorante: o departamento de segurança máxima dos Estados Unidos, que acompanha movimentações militares de todo o mundo, recebe de repente um alerta de um míssil nuclear de origem não identificada previsto para cair no território de Chicago em 20 minutos.
Desdobram-se, a partir daí, três perspectivas nesta ordem: a sala de situação, liderada por Olivia (Rebecca Ferguson), a base militar responsável por lançar o míssil de retaliação e, por fim, a tomada de decisão do Presidente da República (vivido por Idris Elba).

A realizadora tinha ganhado grande notoriedade com Caçadores de Emoção, lançado em 1991. Mas a partir de Guerra o Terror e sobretudo do também premiado A Hora Mais Escura, sobre a caça a Osama bin Laden, sua obra ganhou um comprometimento constante com os assuntos mais tópicos do momento, característica reforçada neste seu novo projeto.
Escrito pelo repórter veterano Noah Oppenheim, coordenador jornalístico da NBC News, Casa de Dinamite é inequivocadamente acurado do ponto de vista procedimental. A cineasta é famosa por se cercar de especialistas dos processos que retrata e confere o máximo de credibilidade informacional ao desenrolar da tensão e se dedica, durante todo o primeiro ato, ao que encena melhor: manter o espectador preso à sala de controle, criando mentalmente diferentes cenários do que está acontecendo e do que pode acontecer do lado de fora.
É bastante sintomático dos nossos tempos que, em seu primeiro longa pós-pandêmico, a diretora faça seu thriller político mais claustrofóbico, no qual o apocalipse é testemunhado quase às cegas.

Toda a exposição que vem a seguir, infelizmente, é progressivamente menos engajante. Ao detalhar o caso por outros pontos de vista e com o mesmo método visual da câmera documental e zooms nervosos, porém, Casa de Dinamite reduz o impacto desse pânico nuclear ao que soa como um dilema técnico, uma crise circunstancial.
Quando chega ao final, o discurso sobre essa ameaça se torna esgarçado pela montagem e diluído pela humanização de personagens que pouco registram. São muitos closes aflitos e planos-detalhe de anéis ao longo da projeção, escolhas artificiais até incomuns para a diretora, que visa criar empatia com figuras que, nesse contexto, funcionam apenas como elos sentimentais para domesticar um cinema excessivamente político.
Mesmo que sua contundência seja substituída por um tom protocolar, poucos cineastas têm a coragem de Kathryn Bigelow para bater de frente com tensões tão reais e voláteis da geopolítica. Mas, em Casa de Dinamite, é o olhar de Ferguson, durante os primeiros 30 minutos, que reflete o pavor assustadoramente contemporâneo de testemunhar o começo do fim.


