ANDRÉ GUERRA
Fotos: Netflix/Divulgação
Quando o ator Jay Kelly (interpretado com naturalidade por George Clooney) aparece pela primeira vez na tela, ele está encenando a última cena de um filme, na companhia de um cachorro. Encerradas as gravações, tenta passar um tempo com uma de suas filhas, a quem claramente não deu atenção suficiente ao longo da vida. Os dias do astro ameaçam colapsar, porém, no momento em que ele reencontra um amigo de muitos anos, o ator frustrado Timothy (Billy Crudup), com quem acaba entrando em uma violenta discussão sobre o passado.
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Esse é apenas o ponto de partida do simpático — ainda que artificialmente sentimental — Jay Kelly, longa de encerramento da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e que estará disponível na Netflix a partir do dia 5 de dezembro. Conhecido por comédias dramáticas como A Lula e a Baleia, Os Meyerowitz e, principalmente, pelo premiado História de um Casamento, o diretor Noah Baumbach dá prosseguimento aqui à sua parceria com a plataforma de streaming, que rendeu recentemente o confuso e irregular Ruído Branco (2022). O resultado é mais uniforme, ainda que dramaticamente menos instigante.

A trama de Jay Kelly começa realmente a ganhar forma quando o protagonista, acompanhado de seu agente e braço direito Ron (Adam Sandler) e da publicista Liz (Laura Dern), embarca em um trem rumo à Itália para receber uma honraria pelo conjunto de sua carreira. O início da viagem já é marcado por momentos de humor que tangenciam o piegas e, não raro, funcionam muito bem — como na cena em que Jay faz amizade com os passageiros de um vagão, ouvindo brevemente suas histórias.
Roteirista costumeiramente de mão cheia — aqui dividindo a escrita com a atriz Emily Mortimer —, Baumbach aproveita essa aura de astro inerente a George Clooney para fazer várias boas piadas com os famosos, com a alienação proporcionada pelo dinheiro, com as diferenças geracionais e o caos em que se transformou a vida pessoal dos coadjuvantes Ron e Liz. As atuações de Sandler e Dern, especialmente na primeira hora, intensificam isso — e ameaçam tomar o filme para si.

Os flashbacks estilizados pela fotografia de Linus Sandgren (vencedor do Oscar por La La Land) trazem um maneirismo incomum à filmografia de Baumbach. São cenas que apontam para uma dimensão gradualmente mais dramática e saudosa, mirando a melancolia de um homem cuja glória está toda no passado — e para quem o que resta são pedidos de autógrafos de desconhecidos e ressentimento dos conhecidos.
Era inevitável que o destino final do road movie em que Jay Kelly se transforma fosse o da emoção calculada, com direito a clipes e olhos marejados. Ainda que o humor domine a narrativa, esta é uma história que exala, desde o primeiro minuto, um tom de homenagem ao próprio George Clooney (o clímax do filme compra essa proposta no atacado e realmente não deixa mentir). O problema é que, por mais carismático que o ator e diretor seja, esse conflito é inábil do ponto de vista da relação com a plateia — e particularmente pouco original no que tem a dizer sobre o preço da fama.

A comédia funciona melhor do que o drama em Jay Kelly justamente porque talvez o humor e a sátira sejam os meios mais eficazes de conceber uma proximidade do espectador com um universo tão ensimesmado quanto o das estrelas de cinema. Fossem os dois assessores os protagonistas dessa história, não apenas o resultado seria completamente diferente, como provavelmente mais cheio de vida e arestas também.
Não há problema algum em mergulhar nas dores e na solidão dos ricos: incontáveis filmes e cineastas já se dedicaram a esse tema com distintas abordagens e êxitos. Noah Baumbach, no entanto, prefere aqui o caminho mais trivial possível — o do autoagraciamento. George Clooney sem dúvida merece a glória que tem, e nada mais justo que um filme reflita as gratificações e contrapartidas desse sucesso. Mas Jay Kelly — filme e personagem — não expande essa reflexão para muito além do sentimento fabricado.


