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Crítica | ‘Eddington’ faz da pandemia cenário de Velho Oeste

ANDRÉ GUERRA
Foto: A24/Divulgação

O ano é 2020. A placa imensa na estrada anuncia o título do filme, nos moldes dos nomes “Mulholland Drive” em Cidade dos Sonhos. Somos apresentados a um bêbado sem rumo e, em seguida, ao protagonista da história: um xerife obstinadamente arrogante (Joaquin Phoenix) que se recusa a usar máscara de proteção facial mesmo quando recebe a chamada de um superior. Entra em cena o oponente, o prefeito (Pedro Pascal), que já está trabalhando fortemente em sua reeleição.

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Trazido ao Brasil em primeira mão pela 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Eddington tem vários ótimos conceitos, mas confirma uma curva descendente do seu realizador, Ari Aster, após o decepcionante Beau Tem Medo, de 2023. Responsável por dois grandes fenômenos do cinema de terror contemporâneo, Hereditário e Midsommar: O Mal Não Espera a Noite, ele parece querer se afastar cada vez mais do gênero que impulsionou o começo de sua carreira, mas o resultado é um filme excessivamente verborrágico que, ironicamente, diz muito pouco em quase 2h30 de duração.

O longa, que traz ainda os premiados Emma Stone e Austin Butler em pequenas participações, demora muito para sequer oferecer algum tipo de impacto que remeta aos melhores momentos de Ari Aster como condutor de situações desconcertantes (possivelmente seu traço mais célebre). A intenção de atualizar o faroeste a esse mundo de paranóias americanas e mundiais tem um valor até explorado na superfície, mas em menos de 30 minutos a tensão já começa a se desperçar e o que pareciam pontos de conflito sendo gestados vão se provando apenas atritos repetitivos.

O tom tenta se equilibrar entre o realismo dramático e a sátira. No entanto, Eddington ele nunca consegue se localizar entre a importância temática (com referências literais à Covid-19, a casos emblemáticos da violência policial) e o humor do absurdo evocado pela própria atuação de Joaquin Phoenix. Os personagens adolescentes que rondam esse núcleo do protagonista, por exemplo, parecem sempre estar povoando um conjunto improvisado.

E mesmo que o terceiro ato ganhe energia e impacto visual pelo emprego de uma ação/suspense à Onde os Fracos Não Tem Vez, a nova empreitada de Ari Aster fora do terror dá sinais de um precoce esgotamento de suas idiossincrasias.

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