ALLAN LOPES
Fotos: Arquivo/DP
A saudosa Beth Carvalho não precisou assinar muitas canções para se tornar eterna. Elizabeth Santos Leal de Carvalho tinha um ouvido afiado e um critério rígido para selecionar repertório, transformando cada samba que abraçava em um clássico. Essa intersecção entre obra e personalidade é o eixo da biografia escrita pelo pesquisador musical Rodrigo Faour, Beth Carvalho — Uma Vida pelo Samba, dentro do projeto Sambabook, o mesmo que lançou um álbum reunindo grandes nomes do gênero em tributo à madrinha do samba.
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Na obra, Faour reconstrói a trajetória profissional da artista carioca desde sua estreia em 1965, mostrando como seus valores pessoais estavam profundamente entrelaçados com sua atuação musical. “Beth unia a artista e a ativista, sem separação possível”, explica o autor, em conversa com o Viver. Foi assim no apoio a Leonel Brizola em 1989, com a gravação do jingle de campanha; na batalha constante por direitos autorais justos; na defesa incansável da categoria dos sambistas; e, sobretudo, na valorização da cultura negra.
A cada nova descoberta, o autor passou a admirá-la cada vez mais. “Beth era uma grande brasileira e uma patriota autêntica. Apaixonada pelo país, pela cultura e, principalmente, pelo samba”, exalta. Segundo ele, sua principal marca era a coerência artística. “Nunca fez concessões. Se olharmos sua discografia, não encontramos ‘músicas de moda’ ou gravações descartáveis. Ela só registrava o que acreditava, mesmo pagando um preço por isso”

Antes de se tornar a madrinha do samba, Beth Carvalho flertava com a bossa nova e a música moderna. Sua conversão definitiva ao gênero ocorreu em 1972, com as gravações antológicas de Andança e Saco de Feijão. Naquele momento, passou a dividir o posto de grande voz feminina do samba com a diva Clara Nunes. “Para se impor, precisou ser firme, assertiva, sem abrir mão da sua visão. E venceu: foi uma das artistas mais bem-sucedidas de sua geração”, crava.
O livro ainda expõe a grave debilitação física da cantora. Suas dores na coluna, por exemplo, a obrigaram a cantar deitada em vários concertos. Mas a grande revelação de Faour é sobre a causa real da morte de Beth. Ela travava, em segredo, uma guerra contra um câncer raro no sacro. Mesmo fragilizada, continuava a planejar futuros espetáculos, convencendo empresários, músicos, médicos – e talvez principalmente a si mesma – de que o palco ainda a aguardava. Cinco dias antes de falecer, em 30 de maio de 2019, tinha um show marcado no Vivo Rio.

Além do sólido currículo que inclui biografias de ícones como Dolores Duran, Angela Maria e Cauby Peixoto, Rodrigo Faour carrega consigo a memória afetiva do menino que ganhou o histórico LP De Pé no Chão em 1979. “Só depois compreendi o quanto aquele álbum era revolucionário para o samba”, relembra. Ele também traz a bagagem de quem entrevistou Beth inúmeras vezes como jornalista e a produziu no álbum Beth Carvalho canta Cartola (2003).
Tal trajetória de respeito mútuo culminou no próprio endosso de Beth, que pessoalmente indicou seu nome para assinar a obra. Credenciais mais do que suficientes para garantir uma leitura indispensável.